Recipientes saturados (23/12/2025)

Pessoas são recipientes que,
ao se encherem pouco a pouco,
mais saturados se tornam —
e vivem prestes a transbordar.

Assim, sempre que derramam
seu conteúdo em ebulição,
há resíduos que mancham,
há vestígios de purificação.

                   ***

Existem recipientes diferentes
em substâncias e capacidades.
E, no fundo, quanto mais vazio for,
menos haverá o que rejeitar.

Qualquer máquina faz melhor (14/12/2025)

Qualquer máquina faz um bordado melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma música melhor que a tua
Qualquer máquina faz um poema melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma costura melhor que a tua
Qualquer máquina faz um desenho melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma escultura melhor que a tua

Mas não é Eu
Mas não é Ninguém
Não é Humano
Não é Orgânico

Toda arte humana
É imperfeita
É artesanato

Toda arte mecânica
É perfeita
É arte de fato?

Devaneio dourado (04/12/2025)


Eu componho em sonho
versos que não cantarei,
imerso, assim suponho,
num vazio que não habitarei.

Eu produzo e uso
versos bem conscientes,
que retratam abusos
de pessoas inconscientes.

Essa fronteira é sem beira
para quem é alienado;
para aquele que se esgueira
num devaneio dourado.

Acontecendo (23/11/2025)


Quando eu era um infante,
sempre imaginava que os grandes
sabiam o que estavam fazendo.

Hoje, uma certeza gigante
me mostra algo impactante:
todos estão se perdendo.

Agora, só se vive o instante,
e a dúvida imensa se expande:
o que está acontecendo?

É um privilégio (20/11/2025)



Ter muitos livros para (se) ler
É um privilégio para quem
Deseja muito (se) conhecer

Ter muitos filmes para (re)ver
É um privilégio para quem
Deseja muito (se) (re)conhecer

Ter muitas letras para (se) escrever
É um privilégio para quem
Deseja muito (se) compreender

Ter muitas histórias para (re)viver
É um privilégio para quem
Deseja muito (re)aprender

É um privilégio para quem
Deseja muito crescer
fazer valer
a pena
a vida

Lista de compras (19/11/2025)

Cinco caixas de leite
Quatro quilos de abacate
Uma garrafa de azeite
Duas barras de chocolate

Seis filés de cação
Três pacotes de ração
Dois sachês de molho
Uma unidade de repolho

Sete latas de cerveja
Doze rolos de papel
Tinta guache e pincel
Meu salário de bandeja

Mais vivo do que nunca (15/11/2025)



Estou mais vivo do que nunca, meu irmão!
Tentei dormir para acordar,
Tentei sumir para voltar,
Me acovardei para criar
Coragem (!)

Estou mais vivo do que nunca, meu irmão!
Prosseguirei até onde der,
Enfrentarei o que vier,
Evitarei o que trouxer
Voragem…

Estou mais vivo do que nunca,
meu irmão.



***



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Aquele menino (13/11/2025)

Ainda sou aquele menino
que preferia ficar sozinho,
imerso em seu próprio mundo,
brincando de modo profundo.

Ainda sou aquele menino.
São outros os brinquedos,
seguem os mesmos medos –
uma criança em desatino.

Ainda sou aquele menino…
Ainda quero estar sozinho,
ainda crio meu torto mundo,
ainda vivo incerto destino.

Quero mais (28/10/2025)

Estou tirando de cena
coisas que não quero mais
pessoas que não quero mais

Rumo removendo o resto
estou eliminando o excesso
indiferente a qualquer pena

Quero mais é me ver livre