O tamanho da convicção (01/02/2026)

Cada um faz um percurso diferente
nesta caminhada de aprender a ser gente.
Não importa se há pedras no caminho
nem se seu trajeto é menor que do vizinho.
Caminhar é preciso, às vezes sozinho.

Enquanto seguimos com força no olhar,
devemos escolher onde queremos chegar.
Há muitas variáveis para se continuar:
qual é o tamanho da nossa convicção,
se o que temos é sonho ou alucinação.

No fim, não é só o destino que conta,
e sim cada pessoa que se encontra.
Se houver tropeços, também há lição,
pois crescimento vem da superação –
e o aprendizado é o que nos encanta.

A medida (11/01/2026)


Espero ter acertado a medida
entre
a cadência e a decadência,
a decência e a indecência,
o que faço e desfaço,
o que vejo e revejo.

Entre
a cadência de viver
e a decadência do ser,
a decência dos atos
e a indecência dos fatos,
a perícia com que faço
e a delícia que desfaço,
a clareza do que vejo
e a incerteza que revejo
espero ter amado a vida.

(Re)mar contra a morte (04/01/2026)


Quem adentra o mar
busca a latente vida,
e encontra, muitas vezes,
a angustiante morte.

Para, enfim, respirar,
qualquer um é gente crescida,
e se encontra, por vezes,
com a oscilante sorte.

É preciso, sim, remar
contra a insistente partida,
e enfrentar, quantas vezes,
o horripilante norte.

Acho que sou poeta (02/01/2026)



Acho que não escrevo romances
porque não sei viver.
Não posso construir nuances,
nada tenho a oferecer.
Acho que sou poeta, então,
pois sinto medo de viver.
posso ofertar minha ebulição
interna, eterna a permanecer
em alguém que sabe só
assistir.

Recipientes saturados (23/12/2025)

Pessoas são recipientes que,
ao se encherem pouco a pouco,
mais saturados se tornam —
e vivem prestes a transbordar.

Assim, sempre que derramam
seu conteúdo em ebulição,
há resíduos que mancham,
há vestígios de purificação.

                   ***

Existem recipientes diferentes
em substâncias e capacidades.
E, no fundo, quanto mais vazio for,
menos haverá o que rejeitar.

Qualquer máquina faz melhor (14/12/2025)

Qualquer máquina faz um bordado melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma música melhor que a tua
Qualquer máquina faz um poema melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma costura melhor que a tua
Qualquer máquina faz um desenho melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma escultura melhor que a tua

Mas não é Eu
Mas não é Ninguém
Não é Humano
Não é Orgânico

Toda arte humana
É imperfeita
É artesanato

Toda arte mecânica
É perfeita
É arte de fato?

Devaneio dourado (04/12/2025)


Eu componho em sonho
versos que não cantarei,
imerso, assim suponho,
num vazio que não habitarei.

Eu produzo e uso
versos bem conscientes,
que retratam abusos
de pessoas inconscientes.

Essa fronteira é sem beira
para quem é alienado;
para aquele que se esgueira
num devaneio dourado.

Acontecendo (23/11/2025)


Quando eu era um infante,
sempre imaginava que os grandes
sabiam o que estavam fazendo.

Hoje, uma certeza gigante
me mostra algo impactante:
todos estão se perdendo.

Agora, só se vive o instante,
e a dúvida imensa se expande:
o que está acontecendo?

É um privilégio (20/11/2025)



Ter muitos livros para (se) ler
É um privilégio para quem
Deseja muito (se) conhecer

Ter muitos filmes para (re)ver
É um privilégio para quem
Deseja muito (se) (re)conhecer

Ter muitas letras para (se) escrever
É um privilégio para quem
Deseja muito (se) compreender

Ter muitas histórias para (re)viver
É um privilégio para quem
Deseja muito (re)aprender

É um privilégio para quem
Deseja muito crescer
fazer valer
a pena
a vida

Lista de compras (19/11/2025)

Cinco caixas de leite
Quatro quilos de abacate
Uma garrafa de azeite
Duas barras de chocolate

Seis filés de cação
Três pacotes de ração
Dois sachês de molho
Uma unidade de repolho

Sete latas de cerveja
Doze rolos de papel
Tinta guache e pincel
Meu salário de bandeja