Alienígenas de nós (02/03/2026)

Somos alienígenas de nós mesmos!
Não entendemos nossas diferenças
raciais e culturais –
somos banais!
Não entendemos nossas diferenças
linguísticas e políticas.
E estendemos nossas desavenças,
cegantes crenças!

Somos alienígenas de nós mesmos!
Não pretendemos nos aproximar,
só o que fazemos é menosprezar.
Somos alienígenas de nós mesmos,
somos os mesmos, alienados de nós.

Enfim (26/02/2026)

Estou vendo o copo cheio:
pelo menos, você veio.
Não me pôs para escanteio
nem me usou para recreio.

Se a chama esmoreceu,
não há mais você e eu.
Nossa cama feneceu
e de drama nos encheu.

Não me teve como esteio
nem amor você me deu.
Não vou mais ficar alheio,
já não sou mais algo seu.

censura (03/02/2026)

mais que o que
escrevemos ou dizemos,
importa mesmo é o que fazemos.

ninguém mais tem
autoridade inabalada.
ninguém mais tem
integridade imaculada.

hoje, ademais, 
as pessoas leem mais
a cobra
do que a sua obra.

está mais fácil de enxergar
e mais difícil de enganar.

os filtros saem devagar…
mas saem!

O tamanho da convicção (01/02/2026)

Cada um faz um percurso diferente
nesta caminhada de aprender a ser gente.
Não importa se há pedras no caminho
nem se seu trajeto é menor que do vizinho.
Caminhar é preciso, às vezes sozinho.

Enquanto seguimos com força no olhar,
devemos escolher onde queremos chegar.
Há muitas variáveis para se continuar:
qual é o tamanho da nossa convicção,
se o que temos é sonho ou alucinação.

No fim, não é só o destino que conta,
e sim cada pessoa que se encontra.
Se houver tropeços, também há lição,
pois crescimento vem da superação –
e o aprendizado é o que nos encanta.

A medida (11/01/2026)


Espero ter acertado a medida
entre
a cadência e a decadência,
a decência e a indecência,
o que faço e desfaço,
o que vejo e revejo.

Entre
a cadência de viver
e a decadência do ser,
a decência dos atos
e a indecência dos fatos,
a perícia com que faço
e a delícia que desfaço,
a clareza do que vejo
e a incerteza que revejo
espero ter amado a vida.

(Re)mar contra a morte (04/01/2026)


Quem adentra o mar
busca a latente vida,
e encontra, muitas vezes,
a angustiante morte.

Para, enfim, respirar,
qualquer um é gente crescida,
e se encontra, por vezes,
com a oscilante sorte.

É preciso, sim, remar
contra a insistente partida,
e enfrentar, quantas vezes,
o horripilante norte.

Acho que sou poeta (02/01/2026)



Acho que não escrevo romances
porque não sei viver.
Não posso construir nuances,
nada tenho a oferecer.
Acho que sou poeta, então,
pois sinto medo de viver.
posso ofertar minha ebulição
interna, eterna a permanecer
em alguém que sabe só
assistir.

Recipientes saturados (23/12/2025)

Pessoas são recipientes que,
ao se encherem pouco a pouco,
mais saturados se tornam —
e vivem prestes a transbordar.

Assim, sempre que derramam
seu conteúdo em ebulição,
há resíduos que mancham,
há vestígios de purificação.

                   ***

Existem recipientes diferentes
em substâncias e capacidades.
E, no fundo, quanto mais vazio for,
menos haverá o que rejeitar.

Qualquer máquina faz melhor (14/12/2025)

Qualquer máquina faz um bordado melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma música melhor que a tua
Qualquer máquina faz um poema melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma costura melhor que a tua
Qualquer máquina faz um desenho melhor que o teu
Qualquer máquina faz uma escultura melhor que a tua

Mas não é Eu
Mas não é Ninguém
Não é Humano
Não é Orgânico

Toda arte humana
É imperfeita
É artesanato

Toda arte mecânica
É perfeita
É arte de fato?

Devaneio dourado (04/12/2025)


Eu componho em sonho
versos que não cantarei,
imerso, assim suponho,
num vazio que não habitarei.

Eu produzo e uso
versos bem conscientes,
que retratam abusos
de pessoas inconscientes.

Essa fronteira é sem beira
para quem é alienado;
para aquele que se esgueira
num devaneio dourado.