A riqueza da paz (19/03/2026)

Preciso fazer terapia
Pra tirar a poesia de mim.
Quero ter a cabeça vazia
E viver para sempre assim.

Vivo a escrever poesia,
Pois é ela que me deixa vivo.
Almejo a graça da sinestesia
E ser dos versos cidadão cativo.

Preciso fazer terapia
Pra tirar a poesia de mim.
Quero ter a cabeça vazia
E viver para sempre assim.

Mas, se a mente antigamente
Vinha em turbilhão tamanho,
Vale um milhão o meu ganho
De ter a paz permanentemente.




Cheias de razão (16/03/2026)

As pessoas não têm noção
e são cheias de razão.
Levam a sua lealdade
ao caminho da perversidade.

As pessoas desejam ação
e fogem da reflexão.
Negam a sua real idade
e se escoram na falsidade.

Elas impõem a sua verdade
e buscam aceitação.
Alimentam a sua vaidade
e fingem comiseração.

Erechim é meu lar (14/03/2026)

Quando voltava de viagens
em que buscava outras paragens,
como me causava alvoroço
esperar para ver o Colosso.

Uma boa sensação, então,
acalmava o meu coração.
E, com o peito feito brasa,
eu me sentia, enfim, em casa.

Como era gostoso voltar a Erechim,
pois ali aprendia que saudade tem fim.
E, por melhor que seja visitar outro lugar,
não há nada que se iguale a um encontro com o lar.




Bumerangue (05/03/2026 - 16/05/2026)

O Diabo não é tão feio quanto se pinta.
A ferrugem é mais forte que a tinta.
Todo cadáver um dia vem à tona.
Todo caráter malvisto sugestiona.

Qualquer máscara cai em algum momento
E leva consigo o iludido encantamento.
Qualquer maldade traz mais vitalidade
E leva consigo o malfeitor à longevidade.

O que não mata fortalece, mas insiste em marcar.
O que se planta se colhe, mas é preciso cuidar.
Não se controla o destino do que é presente,
nem se sabota o caminho que não lhe pertence.

Quem se acomoda não se incomoda.
Quem se incomoda não se acomoda.
Gira a roda, inventa moda – aguenta a poda!

Alienígenas de nós (02/03/2026)

Somos alienígenas de nós mesmos!
Não entendemos nossas diferenças
raciais e culturais –
somos banais!
Não entendemos nossas diferenças
linguísticas e políticas.
E estendemos nossas desavenças,
cegantes crenças!

Somos alienígenas de nós mesmos!
Não pretendemos nos aproximar,
só o que fazemos é menosprezar.
Somos alienígenas de nós mesmos,
somos os mesmos, alienados de nós.

Enfim (26/02/2026)

Estou vendo o copo cheio:
pelo menos, você veio.
Não me pôs para escanteio
nem me usou para recreio.

Se a chama esmoreceu,
não há mais você e eu.
Nossa cama feneceu
e de drama nos encheu.

Não me teve como esteio
nem amor você me deu.
Não vou mais ficar alheio,
já não sou mais algo seu.

censura (03/02/2026)

mais que o que
escrevemos ou dizemos,
importa mesmo é o que fazemos.

ninguém mais tem
autoridade inabalada.
ninguém mais tem
integridade imaculada.

hoje, ademais, 
as pessoas leem mais
a cobra
do que a sua obra.

está mais fácil de enxergar
e mais difícil de enganar.

os filtros saem devagar…
mas saem!

O tamanho da convicção (01/02/2026)

Cada um faz um percurso diferente
nesta caminhada de aprender a ser gente.
Não importa se há pedras no caminho
nem se seu trajeto é menor que do vizinho.
Caminhar é preciso, às vezes sozinho.

Enquanto seguimos com força no olhar,
devemos escolher onde queremos chegar.
Há muitas variáveis para se continuar:
qual é o tamanho da nossa convicção,
se o que temos é sonho ou alucinação.

No fim, não é só o destino que conta,
e sim cada pessoa que se encontra.
Se houver tropeços, também há lição,
pois crescimento vem da superação –
e o aprendizado é o que nos encanta.

A medida (11/01/2026)


Espero ter acertado a medida
entre
a cadência e a decadência,
a decência e a indecência,
o que faço e desfaço,
o que vejo e revejo.

Entre
a cadência de viver
e a decadência do ser,
a decência dos atos
e a indecência dos fatos,
a perícia com que faço
e a delícia que desfaço,
a clareza do que vejo
e a incerteza que revejo
espero ter amado a vida.

(Re)mar contra a morte (04/01/2026)


Quem adentra o mar
busca a latente vida,
e encontra, muitas vezes,
a angustiante morte.

Para, enfim, respirar,
qualquer um é gente crescida,
e se encontra, por vezes,
com a oscilante sorte.

É preciso, sim, remar
contra a insistente partida,
e enfrentar, quantas vezes,
o horripilante norte.