Menino invisível (11/04/2026)


Um menino escrevia
num muro seu nome,
enquanto antevia
um futuro sem fome.

Cresceu entre becos,
sem voz nem razão,
contando seus trecos
na palma da mão.

Dormindo na praça
ao som da cidade,
as ruas perpassa
sem felicidade.

Seu grito calado
cortando o local,
tal bicho abalado,
frustrado animal.

Driblava a miséria,
malandro e selvagem;
volteava as artérias,
fugindo das margens.

Queria dinheiro,
respeito e fama;
corria matreiro,
sem medo, na lama.

O menino invisível
chamava a atenção;
carrão conversível,
malvada intenção.

Num lugar cruel
que a ninguém acolhe,
seu lar era o fel
que a todos encolhe.

A humanidade evoluiu (05/04/2026)

Como a humanidade evoluiu!
Explora a vasta imensidão,
Tem o mundo na palma da mão,
E, sem limite algum, construiu.

A humanidade evoluiu de verdade?
Aqui só quem vence é a maldade!
O poder vende novas fantasias
E não há mais respeito, empatia.

A humanidade evoluiu em quê?
Os jovens já não desejam estudar —
E a placa-mãe a lhes formatar.
Programar o futuro por quê?

A humanidade evoluiu, não erra.
Cada vez mais preparada pra guerra,
Nem mesmo luta pelo bem da Terra,
Sem ver que com seu lar se enterra.

A humanidade, lá adiante, mudará!
Viajará sem esquecer seus mestres.
Outras riquezas, então, descobrirá.
Nós somos mesmo extraterrestres...

Com fiança (26/03/2026)

A vida não é boa
e nada tem significado de verdade.
As pessoas inventam sentidos
para que algo lhes dê sentido.

O melhor pode acontecer,
mas nem sempre ele aparece.
O pior não deveria acontecer,
mas nossa vida ele anoitece.

Nossa maior inimiga é a esperança,
pois no bem nos faz acreditar.
Vivemos a pagar nossa fiança,
só nos resta aceitar e lutar.

Desconexão (24/03/2026)

O que estou querendo dizer
é exatamente o que estou dizendo.
Não há armadilhas de sentido,
é o que estou propriamente sentindo.
Não há palavras complexas
nem ideias levemente desconexas.

Que a minha própria mente
seja leve e exata,
e que essa desconexa gente entenda
o que estou dizendo, o que estou sentindo
(que encontrem algum sentido, afinal).

A riqueza da paz (19/03/2026)

Preciso fazer terapia
Pra tirar a poesia de mim.
Quero ter a cabeça vazia
E viver para sempre assim.

Vivo a escrever poesia,
Pois é ela que me deixa vivo.
Almejo a graça da sinestesia
E ser dos versos cidadão cativo.

Preciso fazer terapia
Pra tirar a poesia de mim.
Quero ter a cabeça vazia
E viver para sempre assim.

Mas, se a mente antigamente
Vinha em turbilhão tamanho,
Vale um milhão o meu ganho
De ter a paz permanentemente.




Cheias de razão (16/03/2026)

As pessoas não têm noção
e são cheias de razão.
Levam a sua lealdade
ao caminho da perversidade.

As pessoas desejam ação
e fogem da reflexão.
Negam a sua real idade
e se escoram na falsidade.

Elas impõem a sua verdade
e buscam aceitação.
Alimentam a sua vaidade
e fingem comiseração.

Erechim é meu lar (14/03/2026)

Quando voltava de viagens
em que buscava outras paragens,
como me causava alvoroço
esperar para ver o Colosso.

Uma boa sensação, então,
acalmava o meu coração.
E, com o peito feito brasa,
eu me sentia, enfim, em casa.

Como era gostoso voltar a Erechim,
pois ali aprendia que saudade tem fim.
E, por melhor que seja visitar outro lugar,
não há nada que se iguale a um encontro com o lar.




Bumerangue (05/03/2026 - 16/05/2026)

O Diabo não é tão feio quanto se pinta.
A ferrugem é mais forte que a tinta.
Todo cadáver um dia vem à tona.
Todo caráter malvisto sugestiona.

Qualquer máscara cai em algum momento
E leva consigo o iludido encantamento.
Qualquer maldade traz mais vitalidade
E leva consigo o malfeitor à longevidade.

O que não mata fortalece, mas insiste em marcar.
O que se planta se colhe, mas é preciso cuidar.
Não se controla o destino do que é presente,
nem se sabota o caminho que não lhe pertence.

Quem se acomoda não se incomoda.
Quem se incomoda não se acomoda.
Gira a roda, inventa moda – aguenta a poda!

Alienígenas de nós (02/03/2026)

Somos alienígenas de nós mesmos!
Não entendemos nossas diferenças
raciais e culturais –
somos banais!
Não entendemos nossas diferenças
linguísticas e políticas.
E estendemos nossas desavenças,
cegantes crenças!

Somos alienígenas de nós mesmos!
Não pretendemos nos aproximar,
só o que fazemos é menosprezar.
Somos alienígenas de nós mesmos,
somos os mesmos, alienados de nós.

Enfim (26/02/2026)

Estou vendo o copo cheio:
pelo menos, você veio.
Não me pôs para escanteio
nem me usou para recreio.

Se a chama esmoreceu,
não há mais você e eu.
Nossa cama feneceu
e de drama nos encheu.

Não me teve como esteio
nem amor você me deu.
Não vou mais ficar alheio,
já não sou mais algo seu.