Calçados (12/11/2024)

O calçado mais apertado é a fome;

o mais desconfortável é a doença.

O calçado mais ordinário é a corrupção;

o mais desgastado é a demência.


O calçado mais cobiçado é a alegria;

o mais desejado é a harmonia.

O calçado mais criativo é a fantasia;

o mais inventivo é a sabedoria.


São calçados com os quais trilhamos

os caminhos que a vida nos dá.

Papelão (10/10/2024)

Já era amanhã.

Logo pela manhã,

no asfalto molhado,

um papelão embolado

rolava com o vento.


Tão pouco desperto,

chegando mais perto,

vi que o tal papelão

não passava de um cão –

que triste lamento!


A criatura inocente,

um bom ser vivente,

pra sociedade doente,

é só um indigente

como lixo descartado –

mas que papelão!

Luto (22/01/2024)

                                * Dedicado ao meu saudoso gatinho Gandy.


Nada é mais poderoso do que a Morte!

Ela tira a importância dos problemas

e nos mostra o tempo que perdemos

com coisas irrelevantes,

com fantasmas que criamos,

sem nos dedicarmos o suficiente

ao que realmente importa,

a quem realmente importa.


Quem escolhe lidar com a Vida,

efêmera, subestimada e traiçoeira,

deve aprender a lidar com a Morte,

súbita, misteriosa…

e cruelmente didática.




Oração ao anjo da guarda (26/06/2023)

Meu anjo da guarda,

meu bom protetor,

teu bem me aguarda,

te dou meu amor.

Me dê proteção

e iluminação.

Perdoe as ausências

e as impaciências -

de ti eu preciso,

com todo o meu siso.

As pedras no caminho

me ajude a tirar -

ofereço o meu carinho,

se me auxiliar.

Minha gratidão

é minha oferenda;

é a exaltação

de todas tuas prendas.

Amansado (23/09/2023)

Sou da engrenagem uma peça

fácil de ser substituída.

Do gado sou a cabeça

friamente abatida.


Sou um leão amansado,

um carro velho amassado,

um herói aposentado,

um lar carbonizado.


Minha resistência é viver;

é deixar a minha marca.

Minha resiliência é sofrer;

é engolir qualquer mágoa.


Quero viver, mas não vivo.

Não vivo, pois tenho medo.

Meu medo foi implantado

e pelo Sistema forjado.


Avanço de cabeça erguida,

vou rumo ao precipício.

Avanço para a minha lida,

pois todo dia é um início.


Tarde demais (09/08/2023)

Quando o ser humano

perceber o que fez

será tarde demais.


Quando o ser humano

perceber o que fez demais

será tarde.


Quando o ser humano

perceber demais

será tarde. O que fez?


Quando o ser humano

perceber o que fez

será tarde.


Quando o humano

perceber o que fez

será tarde.


Quando

perceber o que fez

será humano.

Valente Zorro (13/04/2023)

O valente gato Zorro

nunca deixa de atender

aos pedidos de socorro,

para o inimigo render.


É alvinegro

seu longo pelo.

É tão sedoso,

caudão garboso!


Não é medroso,

meu anjo negro.

Não é preguiçoso

para a qualquer apelo

ajuda empreender.

Minha gatinha Cristalzinha (11/03/2023)

Cristalzinha, Cristalzinha,

Cristalzinha, minha gatinha.

Ela é bem pequenininha,

tão magrinha, tão fofinha.


Sempre, sempre, tão branquinha;

sempre, sempre, tão pestinha.


Cristalzinha, Cristalzinha,

Cristalzinha, minha gatinha.

Me parece tão fraquinha,

mas é muito dispostinha.


Sempre, sempre, tão branquinha;

sempre, sempre, tão pestinha.

Maquiagem (07/03/2023)

Não adianta enfeitar
uma árvore de Natal
sem alicerces.
Tudo irá ruir,
apesar da maquiagem.

É preciso cuidar do essencial,
que não ajuda a aparecer
nem aparece.
Mas sustenta,
mantém em pé,
de cabeça erguida.

E assim é possível
seguir em frente,
sem patinar.

Qual bandeira? (23/10/2022)

Qual é a bandeira que tu ostentas,

povo sofrível e sofrido?

Qual é a bandeira que tu ostentas,

defendendo lobo em pele de cordeiro,

tu também lobo em pele de cordeiro…?

Qual é a bandeira que tu ostentas

para exibir o teu umbigo sujo?

Qual é a bandeira que tu ostentas

para se sentir parte de algo,

para se fazer protagonista do mal?

Qual é a bandeira que tu ostentas,

apropriando-se do que não é teu?


A minha bandeira não é vermelha,

nem verde e amarela.

É branca!

Ou negra, ou multicor…

Tremula de tanta tensão

e está salpicada de sangue e lágrimas.