Nôzinho (23/04/2025)

Nôzinho come banana,
Nôzinho come melão.
Nôzinho vem fazer nana
pertinho do meu coração.

Nôzinho, gatinho sapeca.
Nôzinho, gatinho amado.
Agarra firme a peteca,
agarra o nó do calçado.

Nôzinho, floquinho de neve.
Nôzinho, bolinha de pelo.
Que o tempo nunca te leve,
escuta aqui o meu apelo.

O Fantástico Circo Pau-Brasil (04/03/2025)

O Fantástico Circo Pau-Brasil

conta com patéticos palhaços

que driblam a humilhação diária

com pura bandalha e malandragem.


Há ainda alardeadas marionetes

que idolatram o atroz titereiro

e que, acostumadas à manipulação,

agarram-se aos cordéis umbilicais.


O espetáculo é visto rotineiramente

por um pequeno e lúcido público

que não gosta daquilo que vê

e reclama do preço dos lanches,

mas patrocina e aplaude ternamente.

Bolhas (08/01/2025)

Todos criam sua própria realidade

para fugirem da triste verdade. 


Há o cadeirante que ganha velocidade

na cadeira movida à eletricidade.

Há o colecionador que atrai felicidade

com artigos de alguma raridade. 


Todos criam sua própria realidade

para fugirem da triste verdade.


Há o sonhador que usa a criatividade

para testar a sua (in)capacidade.

Há o indivíduo que muda de cidade

em busca de aceitabilidade.


Todos criam sua própria realidade

para fugirem da triste verdade.


Há o poeta que escreve com liberdade

versos que desafiam a trivialidade.

Há a internauta que mente a idade

num rompante de pura vaidade.


Todos criam sua própria realidade

para fugirem da triste verdade. 

Calçados (12/11/2024)

O calçado mais apertado é a fome;

o mais desconfortável é a doença.

O calçado mais ordinário é a corrupção;

o mais desgastado é a demência.


O calçado mais cobiçado é a alegria;

o mais desejado é a harmonia.

O calçado mais criativo é a fantasia;

o mais inventivo é a sabedoria.


São calçados com os quais trilhamos

os caminhos que a vida nos dá.

Papelão (10/10/2024)

Já era amanhã.

Logo pela manhã,

no asfalto molhado,

um papelão embolado

rolava com o vento.


Tão pouco desperto,

chegando mais perto,

vi que o tal papelão

não passava de um cão –

que triste lamento!


A criatura inocente,

um bom ser vivente,

pra sociedade doente,

é só um indigente

como lixo descartado –

mas que papelão!

Luto (22/01/2024)

                                * Dedicado ao meu saudoso gatinho Gandy.


Nada é mais poderoso do que a Morte!

Ela tira a importância dos problemas

e nos mostra o tempo que perdemos

com coisas irrelevantes,

com fantasmas que criamos,

sem nos dedicarmos o suficiente

ao que realmente importa,

a quem realmente importa.


Quem escolhe lidar com a Vida,

efêmera, subestimada e traiçoeira,

deve aprender a lidar com a Morte,

súbita, misteriosa…

e cruelmente didática.




Oração ao anjo da guarda (26/06/2023)

Meu anjo da guarda,

meu bom protetor,

teu bem me aguarda,

te dou meu amor.

Me dê proteção

e iluminação.

Perdoe as ausências

e as impaciências -

de ti eu preciso,

com todo o meu siso.

As pedras no caminho

me ajude a tirar -

ofereço o meu carinho,

se me auxiliar.

Minha gratidão

é minha oferenda;

é a exaltação

de todas tuas prendas.

Amansado (23/09/2023)

Sou da engrenagem uma peça

fácil de ser substituída.

Do gado sou a cabeça

friamente abatida.


Sou um leão amansado,

um carro velho amassado,

um herói aposentado,

um lar carbonizado.


Minha resistência é viver;

é deixar a minha marca.

Minha resiliência é sofrer;

é engolir qualquer mágoa.


Quero viver, mas não vivo.

Não vivo, pois tenho medo.

Meu medo foi implantado

e pelo Sistema forjado.


Avanço de cabeça erguida,

vou rumo ao precipício.

Avanço para a minha lida,

pois todo dia é um início.


Tarde demais (09/08/2023)

Quando o ser humano

perceber o que fez

será tarde demais.


Quando o ser humano

perceber o que fez demais

será tarde.


Quando o ser humano

perceber demais

será tarde. O que fez?


Quando o ser humano

perceber o que fez

será tarde.


Quando o humano

perceber o que fez

será tarde.


Quando

perceber o que fez

será humano.

Valente Zorro (13/04/2023)

O valente gato Zorro

nunca deixa de atender

aos pedidos de socorro,

para o inimigo render.


É alvinegro

seu longo pelo.

É tão sedoso,

caudão garboso!


Não é medroso,

meu anjo negro.

Não é preguiçoso

para a qualquer apelo

ajuda empreender.