Tu és beleza pura
e eu sou só feiura.
Tu és obstinada
e eu sou só um nada.
Tu és puro brilho
e eu sou maltrapilho.
Tu és bela canção
e eu sou exceção.
Não sei o que te atrai,
nem mais ninguém,
para este alguém
que só te trai.
Tu és beleza pura
e eu sou só feiura.
Tu és obstinada
e eu sou só um nada.
Tu és puro brilho
e eu sou maltrapilho.
Tu és bela canção
e eu sou exceção.
Não sei o que te atrai,
nem mais ninguém,
para este alguém
que só te trai.
O Fantástico Circo Pau-Brasil
conta com patéticos palhaços
que driblam a humilhação diária
com pura bandalha e malandragem.
Há ainda alardeadas marionetes
que idolatram o atroz titereiro
e que, acostumadas à manipulação,
agarram-se aos cordéis umbilicais.
O espetáculo é visto rotineiramente
por um pequeno e lúcido público
que não gosta daquilo que vê
e reclama do preço dos lanches,
mas patrocina e aplaude ternamente.
Todos criam sua própria realidade
para fugirem da triste verdade.
Há o cadeirante que ganha velocidade
na cadeira movida à eletricidade.
Há o colecionador que atrai felicidade
com artigos de alguma raridade.
Todos criam sua própria realidade
para fugirem da triste verdade.
Há o sonhador que usa a criatividade
para testar a sua (in)capacidade.
Há o indivíduo que muda de cidade
em busca de aceitabilidade.
Todos criam sua própria realidade
para fugirem da triste verdade.
Há o poeta que escreve com liberdade
versos que desafiam a trivialidade.
Há a internauta que mente a idade
num rompante de pura vaidade.
Todos criam sua própria realidade
para fugirem da triste verdade.
O calçado mais apertado é a fome;
o mais desconfortável é a doença.
O calçado mais ordinário é a corrupção;
o mais desgastado é a demência.
O calçado mais cobiçado é a alegria;
o mais desejado é a harmonia.
O calçado mais criativo é a fantasia;
o mais inventivo é a sabedoria.
São calçados com os quais trilhamos
os caminhos que a vida nos dá.
Já era amanhã.
Logo pela manhã,
no asfalto molhado,
um papelão embolado
rolava com o vento.
Tão pouco desperto,
chegando mais perto,
vi que o tal papelão
não passava de um cão –
que triste lamento!
A criatura inocente,
um bom ser vivente,
pra sociedade doente,
é só um indigente
como lixo descartado –
mas que papelão!
* Dedicado ao meu saudoso gatinho Gandy.
Nada é mais poderoso do que a Morte!
Ela tira a importância dos problemas
e nos mostra o tempo que perdemos
com coisas irrelevantes,
com fantasmas que criamos,
sem nos dedicarmos o suficiente
ao que realmente importa,
a quem realmente importa.
Quem escolhe lidar com a Vida,
efêmera, subestimada e traiçoeira,
deve aprender a lidar com a Morte,
súbita, misteriosa…
e cruelmente didática.
Meu anjo da guarda,
meu bom protetor,
teu bem me aguarda,
te dou meu amor.
Me dê proteção
e iluminação.
Perdoe as ausências
e as impaciências -
de ti eu preciso,
com todo o meu siso.
As pedras no caminho
me ajude a tirar -
ofereço o meu carinho,
se me auxiliar.
Minha gratidão
é minha oferenda;
é a exaltação
de todas tuas prendas.
Sou da engrenagem uma peça
fácil de ser substituída.
Do gado sou a cabeça
friamente abatida.
Sou um leão amansado,
um carro velho amassado,
um herói aposentado,
um lar carbonizado.
Minha resistência é viver;
é deixar a minha marca.
Minha resiliência é sofrer;
é engolir qualquer mágoa.
Quero viver, mas não vivo.
Não vivo, pois tenho medo.
Meu medo foi implantado
e pelo Sistema forjado.
Avanço de cabeça erguida,
vou rumo ao precipício.
Avanço para a minha lida,
pois todo dia é um início.