O escritor invisível (26/04/2026)

O escritor invisível
escrevia…
escrevia…
mas ninguém o lia.

O escritor invisível
publicava livros
que não vendiam,
postava conteúdos
que não curtiam,
gravava vídeos
que não assistiam.

O escritor invisível só existia
pois sua imagem descrevia.
Escrevendo continuava
pois assim se enxergava.

Versos famintos (25/04/2026)

Meus versos famintos
engolem retalhos brancos
feito caminhões de lixo
que devoram dejetos
para limparem as ruas

Assim reciclo sentimentos
enterrando meus lamentos
depurando meu esgoto
incendiando meu peso morto

Assim sigo e vou vivendo
assim sigo em vão vivendo
alimento versos fartos

Indescritível feição (22/04/2026)

A loucura está ali,
dormente,
prestes a desabrochar,
feito fortuita flor,
latente.

A loucura nos afasta
do inevitável padrão.
A loucura nos empresta
indescritível feição.

A loucura é desconexão,
e não a perda da razão.
A loucura é exclusão;
do conformismo, a superação.

Esta vida, portanto,
desgasta e satura.
Todos passam por tanto,
se arrasta a fatura.
Vem sofrida, entretanto,
e se alastra a loucura.

Minha poesia (19/04/2026)

Minha poesia é uma necessidade fisiológica
que surge urgente e sem nenhuma lógica.

Minha poesia é um bálsamo aos ferimentos
que sutura e cura frágeis sentimentos.

Minha poesia é um aconchegante cobertor
que, no desalento, traz fugaz calor.

Minha poesia é um plantio relegado
que, ao relento, vem sendo regado.

Minha poesia é a minha respiração:
fornece fôlego e emana inspiração.

Minha poesia não se faz sozinha:
depois de lida, já não é só minha.

Menino invisível (11/04/2026)


Um menino escrevia
num muro seu nome,
enquanto antevia
um futuro sem fome.

Cresceu entre becos,
sem voz nem razão,
contando seus trecos
na palma da mão.

Dormindo na praça
ao som da cidade,
as ruas perpassa
sem felicidade.

Seu grito calado
cortando o local,
tal bicho abalado,
frustrado animal.

Driblava a miséria,
malandro e selvagem;
volteava as artérias,
fugindo das margens.

Queria dinheiro,
respeito e fama;
corria matreiro,
sem medo, na lama.

O menino invisível
chamava a atenção;
carrão conversível,
malvada intenção.

Num lugar cruel
que a ninguém acolhe,
seu lar era o fel
que a todos encolhe.

A humanidade evoluiu (05/04/2026)

Como a humanidade evoluiu!
Explora a vasta imensidão,
Tem o mundo na palma da mão,
E, sem limite algum, construiu.

A humanidade evoluiu de verdade?
Aqui só quem vence é a maldade!
O poder vende novas fantasias
E não há mais respeito, empatia.

A humanidade evoluiu em quê?
Os jovens já não desejam estudar —
E a placa-mãe a lhes formatar.
Programar o futuro por quê?

A humanidade evoluiu, não erra.
Cada vez mais preparada pra guerra,
Nem mesmo luta pelo bem da Terra,
Sem ver que com seu lar se enterra.

A humanidade, lá adiante, mudará!
Viajará sem esquecer seus mestres.
Outras riquezas, então, descobrirá.
Nós somos mesmo extraterrestres...

Com fiança (26/03/2026)

A vida não é boa
e nada tem significado de verdade.
As pessoas inventam sentidos
para que algo lhes dê sentido.

O melhor pode acontecer,
mas nem sempre ele aparece.
O pior não deveria acontecer,
mas nossa vida ele anoitece.

Nossa maior inimiga é a esperança,
pois no bem nos faz acreditar.
Vivemos a pagar nossa fiança,
só nos resta aceitar e lutar.

Desconexão (24/03/2026)

O que estou querendo dizer
é exatamente o que estou dizendo.
Não há armadilhas de sentido,
é o que estou propriamente sentindo.
Não há palavras complexas
nem ideias levemente desconexas.

Que a minha própria mente
seja leve e exata,
e que essa desconexa gente entenda
o que estou dizendo, o que estou sentindo
(que encontrem algum sentido, afinal).

A riqueza da paz (19/03/2026)

Preciso fazer terapia
Pra tirar a poesia de mim.
Quero ter a cabeça vazia
E viver para sempre assim.

Vivo a escrever poesia,
Pois é ela que me deixa vivo.
Almejo a graça da sinestesia
E ser dos versos cidadão cativo.

Preciso fazer terapia
Pra tirar a poesia de mim.
Quero ter a cabeça vazia
E viver para sempre assim.

Mas, se a mente antigamente
Vinha em turbilhão tamanho,
Vale um milhão o meu ganho
De ter a paz permanentemente.




Cheias de razão (16/03/2026)

As pessoas não têm noção
e são cheias de razão.
Levam a sua lealdade
ao caminho da perversidade.

As pessoas desejam ação
e fogem da reflexão.
Negam a sua real idade
e se escoram na falsidade.

Elas impõem a sua verdade
e buscam aceitação.
Alimentam a sua vaidade
e fingem comiseração.