Mergulhos (24/08/2026)


Há poetas de entrada
no mundo da poesia.
São os que oferecem
versos acolhedores,
rimas sedutoras
e convidam a dançar.

Também há poetas de saída
do mundo da poesia,
muitas vezes expulsando
até quem ainda não entrou.
Eles transformam a poesia
num clube de gente seleta,
onde só quem sabe a senha
pode adentrar sem problema.

No primeiro caso,
o mergulho é mais raso,
mas mais gente se diverte
e descobre o prazer dessa água.
Na segunda ocorrência,
o mergulho é mais profundo,
não é pra todo mundo (paciência!)
e num redemoinho deságua.

Água & Sal (12/08/2026)

Nossa relação está mais esfarelada
que essa bolacha de água e sal:
desidratada e sem sal.

Sou a última bolacha do pacote:
quebrada, amolecida, insossa.
Não matarei a fome de ninguém,
nem matarei ninguém
de indigestão.

Não obrigarei outra boca a me engolir!

Já pertencemos à mesma embalagem,
recheada de biscoitos sortidos.
Não combinávamos tanto assim —
agradávamos a paladares divergentes.

Nem tudo apetecia os dois:
torta de bolachas tortas,
deixada para depois.

Colheita incerta (12/08/2026)

O professor deve plantar
em todo e qualquer chão,
sem esquecer de cultivar
cada nova geração.

O trabalho cansa, cansa
o professor por inteiro,
mas logo vem a bonança
se o plantio for verdadeiro.

Por vezes, no solo fértil,
só nasce erva daninha,
enquanto, no solo infértil,
cresce alface e abobrinha.

Nem sempre se pode ver
o fruto que ali surgiu,
mas ele ajuda a florescer
o futuro do Brasil.

Forçado (08/08/2026)

Só tenho forças para o automático,
Isso é algo muito sintomático.

Queria ter forças para viver ao máximo,
Mas, quando folgo, sinto-me péssimo.

Prossigo sem forças para mudar,
Apenas assisto ao tempo passar.

Por força um fidalgo por nada fazer
Quando a vida me oferece lazer.

O que restou (06/08/2026)


Esgotei-me tanto
de tanto trabalhar.
Esgotei-me tanto
que na fossa estou.

Desta vez, no entanto,
nada vai me atrapalhar.
Hoje, vou, portanto,
ver o que restou
de mim.

O atleta da língua (03/08/2026)

O poeta
é um atleta
da língua:
mira nos receptáculos
da artística criação;
mergulha nos cálculos
métricos da escansão;
salta os obstáculos
da falta de inspiração;
e desvia dos tentáculos
da falta de recepção.
 
O poeta
é um atleta
da língua:
corre, corre
no campo das rimas;
pula, pula
as vazias estrofes;
lança, lança
mão do ritmo;
corta, corta —
e a palavra escolhe,
e o excesso encolhe,
e o verbo faz nobre.

À flor da tela (31/07/2026)


A máscara mais funcional
não se vê, pois é virtual.

Nessa rede,
há muita piranha 
pintando-se de sardinha
para enganar muito peixe-palhaço.

Nesse lodo,
há muito crocodilo
que se finge de príncipe-sapo
para dar nó em muita perereca.

Nesse terreno,
há muito lobo em pele de cordeiro,
embora não se enxergue a pele,
nem se constate o lobo.
Só se nota o cordeiro,
de pelo muito bem aparado.

Nesse campo minado,
onde até a IA expõe
suas preferências e interesses,
eu preferiria não me interessar.

Fome mental (17/07/2026)

O cérebro é um ser divergente,
que precisa de um comer diferente.

Nutre-se da leitura atenta de uma página,
da busca por uma palavra mágica,
do cálculo que almeja a lógica.

Devora fórmulas e operações,
abocanha formas e traduções,
engole rimas e escansões.

Assim, não sei o que é mais triste:
um cérebro faminto
que não recebe alimento,
ou um cérebro sem fome
que nada mais come.

(r)astros (17/07/2026)

O olhar da pessoa amada
é um porto calmo e seguro.
O olhar da pessoa errada
é um salto para o escuro.

O toque da pessoa amada
é um gesto quente e terno.
O toque da pessoa errada
é um asco, um frio eterno.

O beijo da pessoa amada
é um deleite para a alma.
O beijo da pessoa errada
é um deleite para o trauma.

Qualquer ato que nos toca
deixa um rastro na memória:
ou é ardor que nos convoca,
ou é a dor da nossa história.

Importância (16/07/2026)

Todos estão cegos
e não se importam
com os cegos

Todos estão surdos
e não se importam
com os surdos

Mas mudos poucos estão
pois todos querem dar
a sua preciosa opinião

Ninguém se importa
com ninguém
Ninguém se suporta
só quer ser alguém