Breu (19/05/2026)

Meus olhos não se adaptam à escuridão,

não consigo, então, enxergar.

Diante de tamanha opressão,

só me resta continuar.

Buscando uma luz que me faça ver,

este fio que me conduz é o que me faz crer.

Entre os fantasmas que crio e as correntes frustrações,

entre os momentos de brio e as frequentes alucinações,

preciso de todos os sentidos,

preciso seguir sentindo.

Ando indo (16/05/2026)

Quem sabe alguém esteja por você aguardando.

Quem sabe esse alguém ainda esteja dormindo.

Pode ser que eu não seja o que você está esperando.

Pode ser que seja porque eu não esteja indo.

Abra os olhos e veja a realidade lhe espetando.

Abra os olhos e veja que nem tudo é lindo.

Sempre a mente proteja do que está lhe atrasando.

Sempre a mente fraqueja quando o mal está rindo.

Baleia Azul (07/05/2026)


Em meio a este mar de (des)ilusões,
a azul baleia me seduz,
grandiosa, (en)cantadora,
livre e sem fronteiras.

Mesmo que eu não queira
em sua boca adentrar,
os afogados a isso me impelem.
Se a esse rito eu me negar,
não poderei participar da festa.

Uma vez dentro da baleia,
perco a noção do que está por fora.
Não importa. Nada importa!
Para quem está no casulo vil,
só interessa a sua anatomia
e suas possibilidades
de (des)aparecer.

Olhares (02/05/2026)

O olhar não precisa de idioma,
comunica de forma precisa
com a linguagem da alma.

O olhar não precisa de palavras,
comunica de forma concisa
tanto a flor quanto a lama.

O olhar não precisa de vozes,
comunica de forma silenciosa,
se penetrante ou esquivo for,
a humana alma, a humana lama.

Humanos conteúdos (01/05/2026 - 16/05/2026)

Nossos humanos conteúdos
Serão sempre curtidos:
Com a vida do outro conversam
E são fruto dos que perseveram.

Nossos humanos pensamentos,
Nossos humanos sentimentos,
Serão sempre cancelados:
Da visão do outro divergem,
Com o orgulho do outro convergem.

Mas como é difícil amar o inimigo…
Como é penoso perdoar o malfeitor!
Quem, de verdade, é digno de ser amado?
Quem, afinal, merece ser perdoado?

Não conheço quem não queira ser amigo,
Nem vejo quem não queira ser benfeitor.
Aos olhos do outro, somos nós os desalmados,
Pois ninguém está errado para o próprio coração.

Em suma, o nosso maior algoz é o orgulho,
E o egoísmo é a nossa mais envolvente cegueira.

Fulgurante (27/04/2026)

Num mundo feito para gente direita,
pelo menos eu não sou canhoto.
Não que eu seja direito,
nem que eu seja certo –
nem é certo eu que seja eu.
No mundo em questão,
tentamos ser alguma coisa,
tentamos nos identificar com algo
ou alguém,
alguns melhores atores que outros.
Quando o direito é de que sejamos
protagonistas da própria vida,
o certo é que eu me sinto
um eterno figurante,
figurando pelos cantos,
encantando quem me enxerga.

O escritor invisível (26/04/2026)

O escritor invisível
escrevia…
escrevia…
mas ninguém o lia.

O escritor invisível
publicava livros
que não vendiam,
postava conteúdos
que não curtiam,
gravava vídeos
que não assistiam.

O escritor invisível só existia
pois sua imagem descrevia.
Escrevendo continuava
pois assim se enxergava.

Versos famintos (25/04/2026)

Meus versos famintos
engolem retalhos brancos
feito caminhões de lixo
que devoram dejetos
para limparem as ruas

Assim reciclo sentimentos
enterrando meus lamentos
depurando meu esgoto
incendiando meu peso morto

Assim sigo e vou vivendo
assim sigo em vão vivendo
alimento versos fartos

Indescritível feição (22/04/2026)

A loucura está ali,
dormente,
prestes a desabrochar,
feito fortuita flor,
latente.

A loucura nos afasta
do inevitável padrão.
A loucura nos empresta
indescritível feição.

A loucura é desconexão,
e não a perda da razão.
A loucura é exclusão;
do conformismo, a superação.

Esta vida, portanto,
desgasta e satura.
Todos passam por tanto,
se arrasta a fatura.
Vem sofrida, entretanto,
e se alastra a loucura.

Minha poesia (19/04/2026)

Minha poesia é uma necessidade fisiológica
que surge urgente e sem nenhuma lógica.

Minha poesia é um bálsamo aos ferimentos
que sutura e cura frágeis sentimentos.

Minha poesia é um aconchegante cobertor
que, no desalento, traz fugaz calor.

Minha poesia é um plantio relegado
que, ao relento, vem sendo regado.

Minha poesia é a minha respiração:
fornece fôlego e emana inspiração.

Minha poesia não se faz sozinha:
depois de lida, já não é só minha.